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Projeto da “Estação Antártica” abre evento sobre futuro da Arquitetura

Seminário promovido pelo CEAU apresentou projeto vencedor de concurso público

“Nós, arquitetos e urbanistas, fazemos um exercício diário de enxergar o futuro. E não é uma tarefa fácil”, afirmou Emerson Vidigal, sócio-fundador do Estúdio 41 Arquitetura, de Curitiba (PR), que venceu concurso público de projeto provido pela Marinha do Brasil para a “Estação Antártica Comandante Ferraz”, em 2013 (saiba mais). O profissional realizou a palestra central do Seminário Nacional “Arquitetura e Urbanismo: Diálogo com o Futuro”, realizado dia 27/10 em Brasília (DF).

O evento promoveu discussões sobre a influência das novas tecnologias, técnicas de planejamento, mídias e equipamentos no ensino e no exercício profissional em Arquitetura e Urbanismo. A iniciativa foi do Colegiado das Entidades Nacionais dos Arquitetos e Urbanistas (CEAU), órgão consultivo do CAU/BR.

Emerson Vidigal falou sobre os desafios da concepção de um projeto do nível de complexidade da “Estação Antártica”, base de pesquisa da Marinha do Brasil localizada na Ilha Rei George, localizada na Península Keller, Antártica. O problema inicial foi a escala a ser usada no projeto. “Na cidade, as escalas urbanas nos orientam a tomar decisões. Na Antártica, a escala natural é imensa e praticamente não há outra referência, já que a presença humana é um tanto intrusa”.

 

Emerson Vidigal
Emerson Vidigal

O principal obstáculo do projeto foi o curto tempo, conta o arquiteto.  “Elaboramos o projeto básico para o concurso em 45 dias e o projeto executivo em cinco meses. Não conseguimos sequer visitar a Antártica, pois o prazo de elaboração não coincidiu com o verão”. “Vou escrever um livro sobre esse projeto, e ele vai se chamar ‘Nunca fui à Antártica’”, brinca.

 

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Imagem do projeto da Estação Antártica Comandante Ferraz

 

Diversas questões técnicas precisaram ser solucionadas nesse período, como o formato da construção, que precisa aguentar ventos fortes, que no local chegam a quase 200 km/h; a elevação do corpo da edificação em relação ao solo, que precisa ser adequada tanto à manutenção do conforto térmico interno quanto à segurança das instalações, já que a neve pode se acumular nas entradas e comprometer o trânsito e a segurança.

 

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Concurso foi feito em 45 dias

Outro desafio técnico foi a geração de energia. “Investimos em energias renováveis, mas as turbinas eólicas não se adaptam a ventos fortes, então foi preciso prever mecanismos de retração nas pás quando ocorrerem. Os painéis solares também não são energeticamente eficientes, além de o local ter baixa incidência de luz solar. Então, apesar de instalarmos as duas fontes renováveis, foi necessário prever quatro geradores a diesel. “Dois conseguem manter a no pico de uso, mas como o lugar é inóspito e de difícil acesso, é preciso deixar outro conjunto pronto para ser acionado. Não pode faltar energia em nenhum momento. O projeto prevê condições para quatro geradores, incluindo a substituição anual de um deles, que vai de navio ao Brasil para manutenção”.

No continente gelado, não há código de obras e edificações ou normas técnicas vigentes, apenas as diretrizes do Tratado da Antártica, assinado em 1959. Entre elas estão a vedação ao descarte de resíduos sólidos no local. Desse modo, o projeto prevê um sistema de recolhimento e compressão do lixo gerado para que ele seja devolvido ao Brasil, bem como o tratamento do esgoto produzido. “O projeto não tem certificação ambiental, já que o concurso não exigia. Os selos são instrumentos comerciais e midiáticos, mas o projeto tem certamente preocupação com a sustentabilidade. Mesmo sem se vincular necessariamente a alguma certificação, é função do arquiteto e urbanista considerar esse aspecto em seus trabalhos”.

A Estação Antártica original foi destruída em um incêndio na madrugada de 25 de fevereiro de 2012. Dois marinheiros morreram tentando conter as chamas, sem sucesso. Por isso, o projeto adotou em dobro recomendações técnicas sobre evacuação e combate a incêndios. “Fizemos uma média das normas brasileiras e de alguns países europeus e simplesmente dobramos a precaução com segurança. Como esse foi um trauma muito grande para a Marinha do Brasil, eles fizeram questão de investimento pesado nesse aspecto. Esse é um ponto importante em concursos públicos: identificar também o sentimento do cliente em relação ao projeto”.

BIM – Emerson Vidigal abordou ainda o uso do BIM (Building Information Modeling) no projeto. Segundo ele, “o BIM serviu como ferramenta de ligação entre os arquitetos e os engenheiros do projeto. Obtivemos toda a estrutura em 3D e confrontamos as diferentes concepções de Arquitetura e de Engenharia. Os profissionais dessas duas áreas obviamente raciocinam diferente, e é interessante que seja assim, mas é imprescindível conciliar as visões”.

O cálculo da fundação, por exemplo, foi uma questão equacionada entre as duas equipes. “Inicialmente pensamos em estacas profundas, porque tínhamos que nos basear em hipóteses, mas durante a elaboração do projeto executivo, um estudo preliminar geotécnico nos mostrou que seria mais viável uma fundação superficial”.

Para Vidigal, “não basta o domínio técnico da ferramenta BIM. É necessário que engenheiro e arquiteto se respeitem e se alinhem”. O projeto executivo da Estação Antártica foi desenvolvido em conjunto com a equipe da portuguesa Afaconsult, do engenheiro civil Rui Furtado, que estreou no uso do formato para conceber um projeto do início ao fim (saiba mais sobre o BIM).

Atualmente, a Estação Antártica está em construção na China. “Ela será totalmente construída em contêineres. A montagem será testada e só então vão levar para a Antártica para a montagem”. A previsão é que no mês de dezembro deste ano já comece o preparo das fundações. “Como só é possível trabalhar lá no verão e ele dura três meses, o tempo de execução se dilata muito. A previsão é que terminem em três verões [até fevereiro de 2019]”.

FUTURO  – De acordo com Haroldo Pinheiro, presidente do CAU/BR, “o diálogo com o futuro é uma constante no cotidiano da nossa profissão. O futuro é o nosso presente. Precisamos enfrentar a ordem natural do trânsito de serviços e profissionais entre países, cada vez maior na era da informação. Temos que nos colocar em posição de produzir Arquitetura e Urbanismo – no projeto e na execução – do modo mais contemporâneo, nos antecipando aos problemas que virão. A discussão que o CEAU traz é fundamental para o CAU se orientar para que estejamos sintonizados com as condições atuais de produção de projeto, planejamento e obra”.

 

Haroldo Pinheiro (CAU/BR)
Haroldo Pinheiro, presidente do CAU/BR

O arquiteto Emerson Vidigal  também discutiu sobre a modalidade de licitação de projetos por concurso público, justamente a que venceu para projetar a “Estação Antártica Comandante Ferraz”. “A modalidade é importante sob vários aspectos: para possibilitar que arquitetos e urbanistas capacitados sem tradição familiar e com pouco acervo consigam trabalho. É interessante também porque dá força para as equipes em detrimento do nome do arquiteto. Acredito que isso seja um modo de os jovens se organizarem para o mercado, investindo na coletividade”.

Por outro lado, Emerson Vigial defende que os concursos sejam feitos em duas fases:  uma inicial de ideiais e outra com remuneração dos classificados para a elaboração do projeto básico. “Isso porque envolve muitos custos a elaboração da proposta para concorrer ao concurso e o escritório pode ter prejuizos”.

Para o presidente da Direção Nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), Sérgio Magalhães, que mediou e participou do debate sobre a palestra de Emerson Vidigal, “os concursos públicos implicam em diversos outros fatores que os tornam o melhor método de contratação e, o mais importante: eles enriquecem e fomentam a cultura arquitetônica das cidades”. Para Magalhães, a modalidade permite a revelação de talentos, como o palestrante, além de enriquecer tecnicamente mesmo os profissionais que não participam do concurso, que têm à disposição toda a documentação para consulta e acompanhamento.

 

Sérgio Magalhães (IAB)
Sérgio Magalhães, presidente da Direção Nacional do IAB

Jeferson Salazar, presidente da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA), defendeu que “os concursos públicos são uma forma importante de contratação de projetos, mas é preciso defender essencialmente o fortalecimento de equipes de Arquitetura e Urbanismo nos órgãos e entidades públicas”.

 

Jeferson Salazar (FNA)
Jefferson Salazar, presidente da FNA

Andrea Villela, presidente da Associação Brasileira de Ensino em Arquitetura e secretária-executiva do Colegiado das Entidades Nacionais dos Arquitetos e Urbanistas (CEAU), órgão do CAU/BR promotor do evento, “os concursos abrem oportunidade para os jovens demonstrarem o valor de seu trabalho e de sua formação. Dizem que a qualidade dos cursos de Arquitetura e Urbanismo vem caindo muito, mas os jovens que estão vencendo muitos concursos públicos de projeto e demonstrando que a questão não é tão simples”.

 

Andrea Vilela
Andrea Vilella, presidente da ABEA

INTERNET – Emerson Vidigal destacou o acesso à informação pela internet como ferramenta imprescindível no projeto da estação brasileira, bem como em outros concursos vencidos pelo escritório. Para o também professor da Universidade Federal do Paraná (UFPR), isso ajuda os profissionais da geração atual a conceber projetos muito mais ricos e coerentes.

“Pesquisamos muito em materiais online robustos que a geração de 15 anos atrás não teria acesso. Isso contribui para nos colocar em igualdade de patamar com equipes mais experientes que disputam os concursos”. Vidigal é o “mais idoso” da equipe do Estúdio 41 Arquitetura. Coincidentemente, tem 41 anos. A maioria da equipe tem idades entre 20 e 30.

SOBRE O CEAU – O Colegiado das Entidades Nacionais dos Arquitetos e Urbanistas (CEAU) reúne representantes do CAU/BR, da Direção Nacional do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), da Federação Nacional dos Arquitetos e Urbanistas (FNA), da Associação Brasileira dos Escritórios de Arquitetura (AsBEA), da Associação Brasileira de Ensino de Arquitetura e Urbanismo (ABEA), da Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (ABAP) e da Federação Nacional de Estudantes de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (FeNEA) – entidade convidada.

Clique aqui para baixar a apresentação do arquiteto e urbanista Emerson Vidigal.

Clique aqui para saber o que foi discutido nas mesas-redondas do evento.

Fonte: CAU/BR

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