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Concurso permite a contratante saber “o que está comprando”, diz arquiteto

O trabalho do Estúdio 41, onde atua o arquiteto e urbanista João Gabriel Rosa, palestrante da próxima Aula Magna do CAU/GO, tem nos concursos de projeto de Arquitetura seu eixo principal. Nasceu com o desenho para a sede da Fecomércio, Sesc e Senac no Rio Grande do Sul, passou pelo 1º lugar no concurso para o desenvolvimento do projeto para a Estação Antártica Comandante Ferrazcuja construção acaba de ser concluída – e conquistou diversas colocações em certames da Codhab no Distrito Federal.

Apesar da falta de cultura para a realização de concursos no Brasil, a modalidade de contratação, na opinião de João Gabriel, traz benefícios tanto para o contratante quanto para a comunidade em geral. “O maior deles é que o promotor do concurso sabe o que está comprando”, afirma, citando o ex-diretor da Codhab Gilson Paranhos. “É uma escolha. Ou você paga por um projeto que conhece ou compra um papel com uma cifra. E paga para ver”. O resultado, segundo ele, são os inúmeros projetos mal desenhados e mal executados Brasil afora.

A Aula Magna será realizada no próximo dia 27. Às 9h será no auditório da UniEvangélica, em Anápolis. Às 19h, no Teatro Unip, em Goiânia. Clique aqui para se inscrever: Anápolis ou Goiânia.

Confira abaixo a entrevista completa.

O Brasil realiza menos concursos de projetos do que outros países. Por que isso acontece?
Acredito que por uma confluência de fatores. Apesar de a lei 8.666/93 prever como modalidade preferencial de contratação os concursos – de acordo com algumas interpretações, toda contratação que não for feita via concurso deve ser devidamente justificada – ainda não há nas instituições a cultura ou o costume de promover essa modalidade. A impressão que temos é que é um ciclo vicioso. Se foi sempre assim, não tem porque mudar. As instituições já conhecem um caminho, o setor jurídico já conhece todas as brechas e o termo “menor preço” parece sempre mais atraente. Por outro lado, entendo que falta capacitação do corpo técnico do Estado para promover os concursos. Por fim, acredito que a falta de cultura arquitetônica da nossa sociedade pesa, mesmo entre os colegas de profissão. Há uma deformação do que se vê como a figura do arquiteto. Ainda somos muito associados àquela caricatura do ser criativo, genial, do desenho no guardanapo e muito menos vistos como agentes que tem capacidade e atribuições para promover transformações relevantes, principalmente em escala urbana.

Na sua opinião, quais são os benefícios de se realizar concursos de projetos para o desenvolvimento urbano?
O Gilson Paranhos, ex-diretor da Codhab-DF, disse em uma palestra aqui em Curitiba que, entre muitos benefícios, o maior deles é o promotor do concurso saber o que está comprando. É uma escolha. Ou você paga por um projeto que conhece, que foi escolhido por um corpo de profissionais capacitados e respeitados, ou compra um papel com uma cifra. E paga para ver. O resultado nós já estamos cansados de saber qual é. Projetos mal desenhados e mal executados. Isso falando em edificações, onde um projeto questionável interfere na vida de um número limitado de pessoas. Quando falamos de desenvolvimento urbano me parece inadmissível você comprar esse risco pois as consequências podem ser catastróficas. Mas o mais importante para mim é que os concursos promovem uma discussão dentro da comunidade arquitetônica e acadêmica que transcende o resultado. Você coloca os escritórios de arquitetura para pensar as cidades, que hoje, me parece ser a pauta mais importante da arquitetura.

Como você avalia a qualidade dos projetos que são classificados para os concursos de projetos nacionais?
Acredito que de uma forma geral os projetos são escolhidos de forma muito responsável. O julgador precisa pensar de forma bastante pragmática, entender quais são as necessidades e, principalmente, conhecer as limitações do promotor do concurso e a nossa realidade. Eu acredito que é isso que vem acontecendo nos últimos concursos e, nesse momento, me parece ser uma abordagem necessária e correta. Quanto mais exequível o projeto for naquele contexto, maiores suas chances de serem executados.

Uma questão importante é que grande parcela dos concursos não avança além da premiação dos projetos mais bem colocados. O que é preciso resolver para garantir, ou pelo menos estimular, que os projetos sejam de fato executados?
Acho que parte da resposta está na questão anterior, mas também passa por algo que não conseguimos controlar: Vontade política. O maior desafio é um projeto de concurso sobreviver a diferentes gestões. Hoje, num cenário político polarizado, mais difícil ainda. Como arquitetos autores, nossa responsabilidade é fazer um projeto adequado a realidade e contexto. Como cidadãos nos resta apenas engrossar o coro de quem cobra pela continuidade. Em alguns casos, quando a comunidade que vai se beneficiar com aquele projeto está organizada, percebemos que a pressão surte efeito, principalmente quando o ministério público está envolvido. Afinal de contas há um investimento na promoção do concurso e contratação dos projetos que se perde quando o projeto não é executado. Acho que falta um pouco de participação das entidades de classe também. Por vezes, ajuda a promover o concurso e após o resultado some, lava as mãos.

Como o Estúdio 41 decidiu participar do concurso para a elaboração do projeto da Estação Antártica Comandante Ferraz?
A história do escritório é contada pela participação em concursos. O escritório nasceu assim quando vencemos o concurso para a sede da Fecomércio, Sesc e Senac do Rio Grande do Sul. Pra nós, a decisão de participar passa muito pela disponibilidade de tempo e força de trabalho e se o edital e contrato são adequados ao objeto. Nessa época tínhamos acabado de entregar o projeto executivo da Fecomércio, então tínhamos essa disponibilidade e estávamos precisando de um novo contrato para manter o escritório. No caso da Estação também tem o fato do tema e localização serem especialmente sedutores.

Pode contar um pouco sobre como foi o desenvolvimento do projeto executivo?
Posso dizer que foi uma experiência bastante intensa. O cliente propôs um cronograma bastante desafiador e desenvolvemos esse projeto em quatro meses. Mas não foi intensa apenas pelo prazo, mas pela quantidade de profissionais que se envolveram nessa empreitada, uma equipe multidisciplinar muito competente, comprometida e empolgada com a situação. Obviamente que o tema, o programa e a localização da obra demandaram pesquisa e conhecimento que transcendem a nossa realidade como escritório de arquitetura, o que tornou essa experiência muito rica, de muito aprendizado. A participação ativa do cliente no processo também permitiu que ele caminhasse de acordo com as necessidades impostas por eles. O projeto foi desenvolvido e coordenado pelo Estúdio 41 e teve como principal parceira a AFA Consult, empresa de engenharia de Portugal que coordenou todos os projetos de engenharias.

Que lição o escritório levou dessa experiência?
Somos em cinco sócios e provavelmente você teria cinco respostas diferentes para essa questão. Pessoalmente, posso dizer que essa experiência me fez perceber a importância das engenharias no processo de projeto. Não há bom projeto de arquitetura sem profissionais de engenharia igualmente competentes e comprometidos e devidamente coordenados pelos autores do projeto.

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