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Bienal de Arquitetura de São Paulo condena os carros e denuncia crise da mobilidade

Minhocão, fim da tarde. Lá fora, um mar de carros enguiça a alguns metros da janela do apartamento colado à via elevada no centro de São Paulo. “Tudo para, mas às vezes tem umas arrancadas bruscas”, diz Guilherme Wisnik, olhando para o trânsito. “Não dá mais para enxugar gelo. Precisamos afrontar o privilégio dos carros na cidade.”

Wisnik não é político, nem quer um cargo na gestão do trânsito paulistano. Mas está à frente da Bienal de Arquitetura de São Paulo, que neste sábado chega à sua décima edição quatro meses depois que as maiores manifestações públicas tomaram as ruas do país desde o regime militar.

Sua mostra, de certa forma, ouviu a voz das ruas, embora já estivesse sendo planejada para ser uma espécie de manifesto pela mobilidade urbana, deixando o oásis do parque Ibirapuera e se alastrando por endereços como esse apartamento no Minhocão, o Masp, o Museu da Casa Brasileira e outros pontos perto das estações de metrô.

Divulgação
Imagem da série ‘Cadillac Ranch’ (coletivo Ant Farm) exposta na Bienal de Arquitetura a partir de sábado

Reforçando essa ideia, o núcleo central da exposição é o Centro Cultural São Paulo, com entradas por duas paradas da malha subterrânea da cidade. Lá dentro, estão carros velhos apodrecendo em plena mostra, atrapalhando a circulação numa metáfora nada sutil da rotina das ruas travadas da cidade.

“Nossa ideia é ocupar várias escalas, de um apartamento a um prédio grande e público”, conta Wisnik.

Enquanto o apartamento no Minhocão tem uma mostra sobre a transformação de uma ferrovia elevada em parque, o High Line, em Nova York, o espaço da rua Vergueiro narra a construção do elevado, da marginal Tietê e de um túnel expresso nunca concluído sob a avenida Paulista –tentativas fracassadas de desafogar o trânsito.

No mesmo endereço, outras pequenas mostras registram o declínio de Detroit, berço da indústria automotiva, contabilizam o número de edifícios-garagem em São Paulo e mostram projetos de artistas que enterraram Cadillacs nas areias do deserto.

“Não é uma condenação dos carros”, diz Wisnik. “Mas eles vieram associados à liberdade e acabaram mudando o paradigma de cidade.”

Editoria de Arte/Folhapress

Tanto que os cartazes do Movimento Passe Livre e a parafernália de protestos do Occupy Wall Street, reunidos na exposição, denunciam a violência dessas mudanças e as dores do crescimento das megalópoles mundo afora.

“Isso mostra que o espaço público também é um lugar de tensão e conflito”, diz Ana Luiza Nobre, outra curadora da Bienal. “E revela como o urbanismo vive uma crise.”

Outra parte da mostra fala do “espetáculo do crescimento” anunciado pelo ex-presidente Lula em cidades hipertrofiadas do Norte e Nordeste. Mas pode ser, como aponta Wisnik, mais um caso de “crescimento do espetáculo”.

 

Fonte: folha.com

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