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Parque Urbano: Sustentabilidade e um Processo de Construção Social

John Silveira*

Conforme descreve o arquiteto e pesquisador Hugo Segawa, os parques, enquanto espaços verdes dentro das cidades, surgiram na Inglaterra no século X como evolução de alguns bosques cercados para formação de reservas de caça. Assim como o jardim público, ele veio de encontro às necessidades e padrões estéticos da burguesia ascendente no mundo urbano tornando-se um importante elemento de criação na urbanização européia pós-renascentista e um ícone na relação mitológica e estética do cidadão com a natureza.

No século XVII, a utilização das matas decorria ainda em função do uso racional da madeira para a indústria naval e construção civil. No entanto, além de atender os interesses econômicos, o cultivo de árvores ia aos poucos se tornando também um símbolo na relação mítica do ser humano com a natureza.

O parque urbano, propriamente falando, surgiu no século XIX quando da necessidade de atender uma nova demanda social de lazer da cidade industrial, contrapondo-se, ao mesmo tempo, com o tradicional significado de cidade. Para a arquiteta e pesquisadora Rosa Grena Kliass, o aumento da demanda por espaços de lazer e a introdução das dimensões paisagística e ambiental dentro dos processos de planejamento motivaram a temática dos parques como um dos elementos centrais no desenvolvimento dos planos e projetos urbanos. A percepção, a apropriação e o usufruto dos parques urbanos passaram assim a ser produtos também de uma construção social.

O parque urbano vem estabelecer um permanente processo de recodificação conforme as mudanças urbanísticas de cada momento, adquirindo ou interagindo funções distintas como a preservação natural, atividades esportivas e usos temáticos. No Brasil os primeiros parques criados tiveram uma expressiva influência européia e, numa primeira instância, foram construídos para também atender os interesses da elite dominante. Neste cenário de importação, chegaram as primeiras espécies vegetais de regiões africanas, asiáticas e da própria Europa que pouco a pouco passaram a ser utilizadas como vegetação urbana e domiciliar se misturando com as espécies nativas e estabelecendo as mais variadas composições de paisagens urbanas no País.

Os vazios urbanos das cidades brasileiras, surgidos em função do processo de especulação e falta de planejamento, favoreciam a implantação de parques urbanos. No entanto, foi somente a partir da segunda metade do século XX, quando das novas demandas de lazer desencadeadas pelo processo intenso de urbanização, que eles vieram se tornar uma necessidade e reivindicação social.

O parque moderno, cujo programa combina a contemplação, o lazer e outras funções, veio ser consolidado na década de 70 em resposta às carências da população no que se refere à falta de equipamentos e espaços públicos. Na seqüência, a afirmação do movimento ecológico também em áreas urbanas motivou a partir da década de 80 o surgimento do parque ecológico como fundamento para proposta de requalificação e conservação de unidades de conservação ou áreas urbanas de interesse histórico-cultural.

Depois disso o parque urbano continuou a se transformar. O programa cada vez mais complexo para atender as necessidades de múltiplos usos; o desenho mais livre e desprendido de qualquer importância de estilo; o uso por parte da população aliado à preocupação de cidadania onde a preservação ambiental se apresenta como fator importante; e o surgimento de atividades comerciais ou culturais como feiras e eventos artísticos. É como se o parque urbano contemporâneo tivesse assumindo o lugar de importância da antiga praça medieval.

Na cidade contemporânea os parques urbanos, em conjunto com as demais áreas verdes municipais, apresentam-se como necessidade e elemento especial no planejamento das cidades colocando-se como opção importante de equipamento público as populações e continuidade da morada humana, espaço público livre e elemento de descontinuidade do adensado tecido urbano edificado, reserva de espécies da flora e da fauna, assim como elemento aclimatizador de microclimas da cidade.

*John Silveira é Arquiteto e Urbanista, Ambientalista, Presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanista de Goiás (CAU/GO), Mestre e Professor da PUC-GO, ex-Secretário Municipal de Meio Ambiente

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