Artigo

Elogio à sombra, artigo da conselheira Adriana Mikulaschek

Há tempos, Goiânia vem reiteradamente eliminando suas árvores de grande porte e substituindo-as por palmeiras, numa busca frenética por nos transformarmos em uma Palm Beach do Cerrado. As perdas nesse processo são extremamente preocupantes, quando pensamos na qualidade de vida da população e ainda, na manutenção da espécie humana sobre o planeta.

A importância da arborização se torna particularmente clara quando percebemos seu imenso papel no combate às mudanças climáticas e o crescente aumento da população urbana. Hoje, 85% da população brasileira vivem em cidades, com previsão de 88% até 2050, segundo a ONU.

Além da produção de oxigênio pelas árvores, elas têm grande importância para a captação de dióxido de carbono, nesse momento em que o aquecimento global bate às nossas portas. Segundo já apontaram as pesquisas do paisagista Aloyz Bernatzky, da Universidade de Frankfurt, uma árvore adulta com 25 metros de altura é capaz de absorver 2,3 Kg de CO2 por hora. No mesmo período, ela produz 1,7 Kg de oxigênio – o que supre as necessidades de uma pessoa por um ano inteiro.

Outro ponto de extrema importância no que tange o espaço urbano é o impacto da arborização sobre o microclima. Uma árvore absorve entre 60% e 75% da energia irradiada pelo sol. Assim, ela retira o calor do ambiente para realizar a fotossíntese e a evapotranspiração. Esse processo devolve ao meio cerca de 500 litros de água diariamente. Considerando que os centros urbanos possuem uma temperatura de 0,5 a 2 graus Celsius superior à zona rural, e dada a impermeabilidade do solo e as extensas áreas de reflexão de calor, como paredes e telhados, são zonas mais secas do que seu entorno. Portanto, toda água aqui é bem-vinda.

Já quando chove, é pelos troncos das árvores que boa parte da precipitação encontra seu caminho para penetrar no solo, recarregar o lençol freático e manter as nascentes que alimentam os rios de onde retiramos a água para nosso consumo. Tudo isso sem falar nas fartas sombras que garantem a todos em seu ir e vir, especialmente valiosas com as elevadas temperaturas das últimas semanas.

Os espaços públicos de Goiânia se esvaziam. O privado se sobrepôs ao público quando se trata de escolas, clube, ruas e outros ambientes de uso coletivo. As vias apinhadas de carros não convidam o pedestre a usufruir do que é seu. Não seriam a arborização e as calçadas bem projetadas um belo, eficaz e saudável caminho para a retomada da vivacidade urbana que tanto precisamos? Todos sairão ganhando.

*Adriana Mikulaschek, conselheira do CAU/GO

Publicado originalmente no jornal O Popular, 21/09/2019.

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