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Chuva na Marginal, artigo de Fernanda Mendonça

*Fernanda Mendonça, conselheira do CAU/GO

Muito em breve, veremos o retorno da temporada de chuvas em Goiás. Na Marginal Botafogo, assistiremos mais uma vez ao mesmo filme? Asfalto que cede, rachaduras na pista, erosões e insegurança do cidadão estarão novamente nas manchetes de jornal?

Afinal, em plena execução de uma obra “cosmética”, que não resolverá coisa alguma, a Marginal segue com os mesmos problemas relacionados à instabilidade do solo sob a capa de asfalto e à insuficiente infraestrutura de drenagem da cidade.

Preocupados com o futuro da capital, perguntamos: a via é mesmo imprescindível para nossa mobilidade?

Em busca de uma resposta adequada, é necessário conhecer a história da construção de marginais em nosso País. O ano era 1924 e o engenheiro sanitarista Francisco Saturnino de Brito, que já havia edificado os canais de Santos (SP), foi contratado pelo prefeito de São Paulo para realizar um estudo sobre o Tietê.

O projeto de Saturnino propôs a integração entre o abastecimento, o transporte, o saneamento e o lazer. Apresentou a Avenida Marginal e a valorização dos terrenos vizinhos. Propôs a retificação do rio e, ainda, parques, lagos para lazer e abastecimento, e tratamento de esgoto. O projeto apresentava avanços para a época, mas não foi executado. Foi redesenhado por Ulhôa Cintra e Prestes Maia, que criaram o “Plano de Avenidas” e instituíram o novo modelo de ocupação de São Paulo, valorizando o transporte individual, negligenciando e estreitando os rios urbanos.

Em Goiânia, o Botafogo serpenteava como o Tietê, e a avenida instituída em suas margens roubou o espaço natural do córrego. O objetivo alegado para sua construção foi a melhoria da mobilidade, o que não veio para atender a todos, já que a via nunca recebeu veículos do transporte coletivo. Assim, dizer que ela é imprescindível, soa como uma falácia. Necessário se faz entender de quem é a cidade que desejamos. Do automóvel ou das pessoas?

Em algumas cidades, a decisão de devolver os rios urbanos para a população foi tomada. Seul, na Coreia do Sul, em 2005, removeu a via e o elevado sobre o Rio Cheonggyecheon e transformou suas margens em parque linear. Em Madri, na Espanha, a rodovia que ocupava as margens do Rio Manzanares foi demolida e transformada em parque em 2011. A melhor solução para a Marginal Botafogo, sem sombra de dúvidas, seria a mesma. Mas isso depende de muita coragem e vontade política.

 

Publicado originalmente no jornal O Popular, em 13/10/2018

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